Na primeira vez em que assisti ao filme A Vida de Brian, aqui em São Paulo, fui com meus tios e foi muito bom. No dia estava com alguma espécie de dor, mas não quis nem saber e acabei rindo tanto que, além de perder várias seqüências, esqueci da dor.
Passei um bom tempo da vida indo ao cinema, quase diariamente. Ia sozinha, até hoje tenho essa mania. Procuro estar bem concentrada para me sentir envolta num momento mágico. Também porque não quero ser aborrecida pelos falantes e barulhentos companheiros das salas de cinema. Comigo é diferente, não fale comigo, nem baixinho. Eu faço de conta que nem lhe conheço.
Mas voltando ao incrível grupo Monty Phyton, não vou falar mais nada sobre ele, porque muito já foi falado e bem falado e asssino embaixo. Quero falar sobre o filme ter sido eleito a melhor comédia de todos os tempos pelos ingleses. Cada cultura com suas preferências. Eu colocaria mais de um (do mesmo grupo, talvez todos, melhor, qualquer que tenha sido o formato do trabalho do sexteto).
Mas minha diversão mesmo é com esse papo de competição. Acho a maior besteira do mundo. E olha que sem querer (sempre procurei estar distraída, num mundo particular) já ganhei concursos de frases, textos, competições esportivas, nota dez por resolver antes de qualquer um da classe questões matemáticas, mesmo trocando os números das equações –dislexia leve, acho– e sei lá mais o quê… Ainda assim acho estranho alguém realmente acreditar que é o melhor. No esporte, por exemplo, gostaria que fossem colocados muitos, todos os humanos dos quatro cantos do mundo, com as mesmas condições (até desde a infância), com os mesmos tratamentos e com a escolha do dia melhor para todos e assim saber quem seria o “melhor”.
É engraçado a pessoa se achar melhor do que outros. Às vezes digo assim: dá a medalha ou troféu para o ser e a grana. Pronto, você é o melhor. Agora vá dormir ou fazer coisa melhor. Tudo é tão efêmero.
Gostaria de ver todos com as mesmas condições, seria um mundo ideal. Quantos cientistas perdemos diariamente ao retirar a oportunidade de muitos. Quantos seres desperdiçados. Que pena.
Mas vou rir um pouco, como faço cada vez em que assisto ao filme considerado a melhor comédia pelos britânicos. Eu acho comédia o melhor gênero. Por outro lado, gosto muito de documentários. E de filmes que nos fazem pensar, que contribuem para o nosso crescimento.
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E mais um texto do André Lux, retirado da Agência Carta Maior.
“A Vida de Brian”, do Monty Python
Obra-prima do grupo Monty Phyton ridiculariza o fanatismo religioso, a arrogância imperialista e a incapacidade das “esquerdas” de se unirem em torno de um objetivo comum.
André Lux
A Vida de Brian é sem dúvida a obra-prima do grupo Monty Python. Uma sátira destruidora que atira para todos os lados e não erra o alvo (quase) nunca.
O filme tem como pretexto narrar a trajetória de Brian (Graham Chapman), um pobre coitado filho de uma judia que foi “enganada” pelo centurião romano Nojentus Maximus. Brian é contemporâneo de Jesus Cristo (que é visto apenas em um plano inicial em um de seus sermões da montanha), entra para um grupo revolucionário que deseja expulsar os romanos, acaba sendo confundindo como mais um messias religioso e passa a ser perseguido a contragosto por centenas de discípulos até ser crucificado.
Na verdade, os focos principais da gozação dos seis ingleses, que se revezam em múltiplos papéis na tela e ficaram famosos com o show televisivo The Monty Python Flying Circus nos anos 60, são o fanatismo religioso, a arrogância dos imperialistas e a incapacidade das ideologias ditas de “esquerda” de se unirem em torno de um objetivo comum. O filme ganha contornos ainda mais atuais se pensarmos no governo petista de Lula, o qual é muitas vezes atacado com mais ferocidade por outros partidos que, no fundo, lutam pelos mesmos objetivos do que pelos seus próprios adversários ideológicos!
Em uma das cenas mais emblemáticas do filme, o líder da “Frente dos Povos Judaicos” afirma categoricamente a um atônito Brian: “Só existe uma coisa que odiamos mais do que os romanos – a maldita Frente Popular Judaica” e em seguida cita todos os outros grupos revolucionários, inclusive o dele mesmo! Já em outra seqüência não menos demolidora, dois grupos se esbarram em frente aos aposentos de Pilatus com o mesmo plano de seqüestrar a esposa do governante invasor. Irritados com a coincidência e já em pé de guerra, são alertados pelo mesmo Brian:
- “Irmãos, não deveríamos nos unir para enfrentar o inimigo comum?”
- “A Frente Judaica Popular!”, bradam todos, em êxtase.
- “Não… os romanos…”
- “Ah, é…” Um guarda passa na porta e eles se escondem. Passado o susto dizem: “Onde estávamos mesmo?” – e partem para a porrada até se matarem ou serem capturados pelos guardas. Não é preciso dizer mais nada, não?
É impossível não rir com a quantidade infinita de piadas e situações inacreditavelmente absurdas inventadas pelos anarquistas do Python – Brian chega até a participar de uma batalha espacial! E a cena em que Poncius Pilatus (interpretado com a língua presa por um impagável Michael Palin) tenta convencer seus centuriões que tem um amigo chamado Bigus Dikus (Pintus Imensus) é de fazer qualquer mortal chorar de tanto rir! Os imperialistas romanos, como não poderia deixar de ser, são sempre mostrados como figuras ineptas e prontas a serem ridicularizadas por todos do alto de sua arrogância e presunção.
É óbvio que, por causa desse conteúdo provocativo e contestador, A Vida de Brian sofreu e sofre até hoje ataques do tipo “não vimos e não gostamos” de grupos religiosos e extremistas (tanto de direita quanto de esquerda), que no fundo só ajudam a comprovar e reforçar ainda mais o caráter satírico da produção. Mas, esqueça os intolerantes que acusam o filme de ser anticristão, pois ele é somente uma comédia escachada que brinca sem pudores com assuntos polêmicos sem nunca ser desrespeitoso com qualquer religião.
É importante ressaltar que os Python tinham pleno domínio cênico e eram capazes de construir cenas tecnicamente muito bem feitas, inclusive aquelas que tinham a deliberada intenção de parecerem toscas ou ridículas. Não é à toa que o filme A Vida de Brian foi eleito a melhor comédia de todos os tempos pelos ingleses. É simplesmente antológico!



